Quase Famosos

Por Cristiano Bastos

Há casos em que a originalidade das trilhas sonoras superam a do próprio filme. Mas não é o de Almost Famous – Quase Famosos (2000, Oscar de Melhor Roteiro Original), de onde a grande inspiração vem da música e da cativante estória criada pelo diretor Cameron Crowe (Vanilla Sky). A trilha de Quase Famosos é quase um apêndice da época em que se passa o filme, o ano de 1973. No filme, Crowe romanceia passagens autobiográficas de sua precoce trajetória de "foca" da mídia musical na pele do adolescente William Miller (Patrick Fugit), de 15 anos. A história é real: nos anos setenta, com 16 anos recém-completados, Crowe passou a integrar o staff de jornalistas da revista especializada Rolling Stone, da qual se tornaria anos mais tarde um dos editores associados. Na ficção, William é contratado pela revista para cobrir a fictícia e emergente banda Stillwater numa grande reportagem off-road pelos EUA. Crowe, no entanto, de forma inteligente, não eleva sua persona ao centro das atenções. Pelo contrário, dá-lhe a posição de um atento observador. Em turnê com o grupo, o repórter-mirim passa a acompanhar as aventuras e desventuras do grupo na estrada – às vezes como protagonista, outras como voyeur. São aventuras que envolvem drogas, bastidores, amores, desilusões, amizades e legiões de groupies, muitas groupies. Rouba à cena Penny Lane, a líder da gangue de fãs vivida com singeleza e volúpia por Kate Hudson.

Um dos predicados da impecável trilha de Quase Famosos – e no caso de certas canções – é o resgate de melodias que, embora esquecidas, permaneceram latentes no inconsciente de muitas pessoas. É o que acontece, por exemplo, com o doce standart America, da dupla Simon & Garfunkel. É daquelas músicas que dão impressão de já terem sido ouvidas antes. O que acontece também com Tiny Dancer, de Elton John, tocada num dos momentos mais pungentes do filme. A balada, entoada em coro pela trupe que acompanha a banda, ajuda-os a superar o conflito de egos que coloca em jogo a amizade do grupo. Merecida justiça a Elton John, que nem sempre foi o chato lacrimoso de bubbleguns pegajosos como Nikita e Sacrifice, assimiladas não pela poesia, mas pelas ardilosas estruturas elaboradas para emplacar em rádios FM para adultos. A instrumental Sparks, excerto retirado da ópera-rock Tommy, do The Who, retrata o instante no qual William descobre o rock com os vinis da irmã, que está fugindo da mãe autoritária e moralista (Frances MacDormand). Ela lhe presenteia com os preciosos elepês para protegê-los da inquisição materna e para iniciar o jovem garoto no universo colorido do rock’n’roll. Simon & Garfunkel (logo eles, exemplares bons moços), a mamãe tacha de subversivos: “esses puxam fumo!”, ela condena.

Outra distinção da trilha de Quase Famosos é a constelação de artistas que reune, egressos de diferentes linhagens do mainstream musical da época. Como versa o clichê, “do tempo em que gigantes pisavam sobre a terra”. Mostra dessa positiva disparidade é a presença de I’ve Seen All Good People: Your Move, do Yes, figurando ao lado da pervertida I'm Waiting for the Man, do Velvet Underground de Lou Reed, numa versão ao vivo estrelada por David Bowie & os Spider From Mars. A faixa traz a guitarra suja, alta e malvada do melhor guitarrista com que Bowie já se promiscuiu, o lendário Mick Ronson. A razoável Fever Dog, da banda Stillwater, foi composta pelo próprio Cameron Crowe. O som da Stillwater, na verdade, é o crossover dos três grupos que o diretor mais gostava na sua juventude: Led Zepellin, Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd. Outro nome dos anos setenta, o superguitarrista Todd Rundgren, ex-Amboy Dukes, aparece em It Wouldn’t Have Made Any Difference. Rod Stewart esgoela-se na roufenha Every Picture Tells a Story, certamente um dos grandes achados da trilha.

Os psychodelic sixties estão representados na afetuosa Feel Flows, dos Beach Boys, composta por Carl Wilson (irmão do gênio seqüelado Brian Wilson) e Mr Farmer, da obscura garage band The Seeds. One Way Out, do Allman Brothers e Simple Man, do Lynyrd Skynyrd, são os momentos etílicos do disco, onde os grupos atacam de rock caipira repleto de guitarras folk inflamadas. Outra surpresa da trilha é a presença de Cat Stevens, com a bucólica Is the Wind – na fase anterior a sua conversão a mulçumano e a optar pela misantropia antiestrelato. Os britânicos do Led Zeppelin surgem com That's the Way, uma das composições mais ternas da dupla Page/Plant.

Um pequeno deslize do disco, contudo, foi não ter incluído Search and Destroy, dos The Stooges, a banda seminal de Iggy Pop. No filme, o mitológico crítico de rock Lester Bangs (Phiilip Seymour Hoffman), editor da Cream Magazine – uma espécie de mestre Yoda do pequeno pupilo William– entusiasma-se com virulência dessa música, que na época era conhecida apenas nos subterrâneos de Detroit e Nova Iorque. Mas ainda tem a cantora Nancy Wilson, que trabalhou na trilha incidental do filme e participa com Lucky Trumble, Clarence Carter, com Slip Way e Thunderclap Newman, com Something in the Air – cada qual cooperando para evocar a atmosfera – pós-flower power, progressiva e pré-punk – que fez da década de setenta um das mais controversas, glamourosas, decadentes e ricas para o rock no século XX. Quase Famosos, tanto som quanto imagem, é um souvenir ensolarado dessa saudosa época que não ficou perdida no limbo do tempo.

Cristiano Bastos é jornalista e autor do livro Gauleses Irredutíveis – Causos e Atitudes do Rock Gaúcho (editora Sagra Luzzato).

Serviço: Quase Famosos
Autor: Vários Artistas
Ano de Lançamento: 2000
17 músicas
Preço médio: R$ 27,90

 

 

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Raquel Sá - 2004